Liliana Angulo: Uma performance afrocolombiana  

Zeca Ligiéro | CLA-UNIRIO

O trabalho de Liliana Angulo ocupa um lugar especial no meio das artes colombianas por sua ambigüidade e virulência. Ela trabalha simultaneamente com instalações, vídeo, exibições de fotos e performances. Se tudo isso aponta para uma sintonia com os movimentos artísticos contemporâneos, o que é verdade, sua temática reflete não só uma expressão do feminino face à violência do mundo globalizado em voga também, mas vai muito além, mergulhando no passado escravocrata sul americano, dialogando com ícones incômodos de aprisionamento e de tortura do corpo feminino.

Logo não é o prazer do deleite de autoflagelações ou da simples arte do body modification que lhe interessa, mas as marcas de imposição de uma nova (antiga) ordem não desejada, definida pelo outro – o corpo feminino negro manipulado pelo poder e transformado em mercadoria. Portanto, seu assunto é vasto em incursões pela historia e a antropologia, ela examina não só os objetos de tortura e marcas tribais, como as representações do negro como o Outro exótico. (Figura 1. Objeto para deformar- lábio. Auto-retrato.)

Para falar sobre isso com mais clareza, ela rememora imagens de um passado colonial onde a mulher negra é retratada suntuosamente como senhora de escravos "Retrato de una negra" Henry Price. (Figura 2. “Retrato de uma negra.” Henry Price. 1852. Província de Medelim. Aquarela para a Comissão Coreográfica.) Ao recriar como fotografia a imagem dessa pintura realista do século XIX, uma das raras representações pictóricas no mundo das artes colombiano em que um negro é apresentado elegantemente vestido. (Figura 3. Projeto “Presença Negra.” “Retrato de Lucy Rengifo, nascida em Medelim.” Fotografia.) Liliana re-visita esse passado, como se fosse possível expor uma segunda epiderme presente no imaginário de uma população que não ocupa ainda uma posição desejada no ranking social.

Um outro aspecto importante no seu trabalho recente é a releitura da imagem do negro hoje, tendo como referencia a luta pela afirmação da negritude dos anos 60, quando o corte de cabelo conhecido como black power de Angela Davis e os Black Panthers se tornou o próprio símbolo de resistência, Liliana cria um dialogo com a leitura estereotipada do cabelo black power veiculada pela mídia nos anos subseqüentes. Sua criação das perucas de bombril exageradamente grandes externaliza expressões de rejeição à negritude através do que é comumente chamada pela visão preconceituosa do “cabelo ruim” do negro, expressão usada na Colômbia e também no Brasil. (Figura 4. Projeto um negro é um negro, série Portadores de Perucas. Perucas feitas de esponja de bombril.)

Um outro tema desenvolvido dentro dessa linha de trabalho, é a questão da cor da pele como marca de raça. Liliana, uma afro-descendente, em suas performances, pinta sua pele de preto, como que reafirmando duplamente sua cor e identidade. (Figura 5. “Negro Utópico” auto-retratos, ações domésticas, figura com fundo amarelo de tela de toalha de mesa estampada, pele pintada e perucas de esponja.) Porém, em sua face, recria a máscara do minstrelsy norte-americano, típico do negro comediante, como tão bem nos mostrou Spike Lee em seu filme Bamboozled (A Hora do Show, 2000), e que havia anteriormente sido apropriada por comediantes brancos como Al Jolson.

Ao escolher um modelo para trabalhar, Liliana dá um novo passo, como uma escultura moldando vida, ou uma diretora de performance que cria uma espécie de tableau vivant da Paixão da mulher empregada doméstica negra, ela apresenta em quadros miméticos com ações congeladas, as sete estações pelas quais passa a doméstica de cor negra: o ferro de passar roupa, o fogão, o liquidificador, o espanador, a vassoura, a batedeira etc. Aqui sua obra aponta em direção ao senso comum que registra “a negra é normalmente empregada doméstica e a empregada doméstica é normalmente negra.” Sua roupa é da mesma estampa do azulejo da cozinha, figura e fundo se confundem na sua eficácia doméstica de servidão e de objeto de consumo. (Figura 6. Série “Mambo Negrinha.”)

Sua obra, como um conjunto heterogêneo mostra um caleidoscópio de imagens e situações da representação do negro, trazendo tensões e conflitos entre gênero, representações de raça enquanto estereótipo. Seu trabalho coloca novos parâmetros para uma arte sintonizada com as questões dos estudos afro-americanos e diaspóricos. Seu humor é corrosivo sem ser perverso, há sempre uma narrativa épica na qual os dramas do passado ajudam a nos orientar no presente, como diz um ditado africano: “Se não sabemos para onde vamos, devemos nos perguntar de onde viemos.”


Zeca Ligiéro possui graduação em Direção Teatral pela UNIRIO (1972), mestrado (1988) e doutorado (1997) em Performance Studies - New York University. Atualmente é Professor Associado e Decano do Centro de Letras e Artes da UNIRIO. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Direção Teatral, atuando principalmente nos seguintes temas: performance, performance afro-brasileira, cultura afro-brasileira, cultura popular e teatro experimental. Entre seus livros destacam: Divine Inspiration from Benin to Bahia (1993, EUA), Iniciación al Candomblé (1995, Colombia) e Malandro Divino, a vida e a lenda de Zé Pelintra (2004), e Carmen Miranda: uma performance afro-brasileira (2007, Brasil).