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"El Shame-man se encuentra com el Mexican't y com la hija apócrita de Frida Cola y Freddy Krugger en Brasil”: Quanto a transgressividade do processo"
Andréa Maciel Garcia

A última noite do V Encontro Internacional de Performance de Belo Horizonte, realizado pelo Hemispheric Institute e pela UFMG, proporcionou um dos debates mais ricos e interessantes do Seminário porque -- além de englobar fortes questões políticas, estéticas e metodológicas -- partiu de uma experiência coletiva prática envolvendo os participantes de várias maneiras. Este texto se destina a tematizar a questão relativa à transgressividade do processo criativo a partir de uma análise do acontecimento performático assim como pontuar alguns impactos gerados na sua realização.

O trabalho em foco é a Performance/Instalação intitulada "El Shame-man se encuentra com el Mexican't y com la hija apócrita de Frida Cola y Freddy Krugger em Brasil” orientada por Guillermo Gómez-Penã, James Luna e Violeta Luna apresentada no palco do Teatro Francisco Nunes no dia 17 de março de 2005. A proposta tinha como objetivo um acontecimento performático de risco, onde o processo do workshop Performance, Pedagogia e Construção Comunitária ,desenvolvido nos dois dias anteriores, seria incorporado aos trabalhos autorais de Guillermo, Violeta e James no momento daapresentação daPerformance.

A idéia era seguir de certa forma um processo muito próximo ao utilizado na condução do workshop: liberar o fluxo subjetivo de imagens inconscientes que nos atravessam na contemporaneidade e jogar com isso ali, naquele espaço aberto, para que produzissem choques, fluxos, conexões e desejadas sinergias. O corpo era o meio de veiculação dessas imagens que no trabalho de Gómez-Penã ganham um papel visceral pela força de suas representações e oposições geradas.

No palco do Teatro foram construídos vários altares que abrigavam uma justaposição de símbolos radicais enquanto as cadeiras da platéia permaneciam vazias e na penumbra dando a impressão de um teatro fantasma. Em um dos limites do palco, uma indiazinha despida numa mesa ginecológica tendo seu corpo transfigurado e atravessado por imagens de decomposição, violação cultural e transexualidade que vão literalmente transformando-a num travesti. Elementos que por si só assumem um vigor acima dos acontecimentos.

Convivendo com estes altares de imagens cortantes, um bar que servia a performances e público que se esbarravam o tempo todo em cima de um mesmo palco, e agentes performáticos catalisadores com a função de levar o público a esses lugares de liberação inconsciente através de vestimentas incorporadas ou excluídas e espaços de amplificação como palanques e microfones. A sensação de vertigem era inevitável diante de uma Frida Cola que com pinças cirúrgicas ia se desfigurando até parir um coração de boi e se transformar em um açougueiro sádico ou de um público que aos poucos ia aceitando o convite de também se transfigurar e deixar a sua camisa social para se ajoelhar despido com um quepe de general do exército, uma peruca vermelha e um colar de índio enquanto tomava uma cerveja.

A experiência ou happening ou acontecimento gerou uma multiplicidade de impressões, oposições e controversas que iam desde questões institucionais pautadas em mecanismos de segurança como o risco de se instalar um bar e fumar como loucos dentro de um teatro até questões políticas como o excesso de imagens em torno do tema sexualidade e violência com ênfase no corpo feminino e problemas relacionados à realidade ameríndia como o alcoolismo responsável pela devastação de muitas aldeias indígenas.

O debate posterior à nossa prática foi particularmente interessante porque incluiu pessoas que atuaram, conduziram e participaram como público passivo ou ativo. Participamos de uma conversa onde cada um partiu de um lugar real na experiência o que permitiufalas que protagonizavam idéias a partir de vivências concretas. 

Essa condição de participante ativo proporcionou uma dinâmica extremamente vigorosa que abriu espaço para reflexões de conceitos centrais no contexto da Performance política na pós-modernidade como: o tratamento da imagem e os conflitos gerados entre os pólos: conteúdo x presentificação, resultado x processo, conservação x consumação e finalmente transgressividade x processos metodológicos.

Vou me deter aqui sobre o aspecto do ato transgressivo x processo criativo e com isso somar a minha reflexão pessoal à rica rede de questionamentos elaborada a partir desse acontecimento. Falo do lugar de participante do Workshop e da Performance, e nessa condição em primeiro lugar me coloco grata, provocada, instigada e incomodada, não necessariamente nessa ordem das coisas.

A abordagem pedagógica de Guillermo e Violeta foi de uma precisão e cuidado que remete às práticas orientais. A condução do processo criativo partiu de exercícios de expansão sensorial focados na respiração e no movimento que fluíam para movimentos de abordagem xamânica como os círculos horários e anti-horários intrínsecos (amplamente utilizados nos terreiros de Umbanda ou Candomblé) até dinâmicas impregnadas de elementos da psico – arte, sempre torneadas de palavras muito bem escolhidas e colocadas.

Dessa forma as potências subjetivas foram instigadas e encontraram fluidos canais para a sua evasão. Imagens que impactavam e extravasavam múltiplos sentidos eram liberadas por nossos corpos receptivos e ativos. Um princípio extremamente político estava sendo exercitado nessa dinâmica das liberdades concedidas. Até que ponto eu permito que o outro possa protagonizar suas idéias através do meu corpo, ou até que ponto eu me permito realmente atuar minhas idéias no meu corpo com a propriedade das minhas questões individuais e coletivas. Questões como estas eram partes integrantes de um fluxo sólido de liberação de imagens atravessadas pela realidade política contemporânea. Não estava em pauta a conceitualização dessas imagens e sua pertinência, mas a própria legitimidade de sua liberação catártica

Nessa perspectiva, o processo de vir a ser dessas representações imaginárias era mais importante do que suas possíveis significações, e no devir desses acontecimentos éramos convidados a transgredir, ir além, infringir nossos padrões conhecidos para alcançar outros, ou seja, o movimento transgressivo estava implicado no processo e não em seu fim.  Essa abordagem além de afirmar o caráter performático valoriza o processo em detrimento do produto e está em sintonia com uma dinâmica de mediação do indivíduo com o mundo onde o corpo e a ação exercem papéis essenciais.

Retornando as questões específicas do processo em foco é interessante observar o diálogo estabelecido entre os atos de limitar e transgredir. O estabelecimento de marcos claros de fruição eram extremamente necessários para uma liberação criativa e coletiva que potencializasse as dinâmicas de vir a ser dessas imagens inconscientes.

Nesse sentido é possível afirmar que o conceito de transgressividade aqui está associado à relação do pensamento surrealista com a arte contemporânea onde a idéia de destruição de significados convencionais e criação de novos significados e contra-significados, segue a dinâmica de justaposição radical de imagens impulsionada por uma oposição aos próprios veículos estabelecidos.

Considero essa oposição vital para o ato criativo, não há transgressão sem limite, nem limite sem a possibilidade de sua infração. Precisamos saber muito bem como as coisas funcionam se desejamos transformá-las.

Esse ato político inerente ao comportamento performático foi parcialmente fragilizado na transposição do processo ocorrido no Workshop para a apresentação da Performance no Teatro, pois os limites dessa condução específica ficaram muito pouco claros.

Ao conduzir o processo de desenvolvimento da Performance/Instalação, foram estabelecidos os seguintes pontos de referência: estado de jogo e improviso que prescinde do estado afinado de escuta na dinâmica de estímulo e resposta, distribuição de papéis com objetivos definidos, a espacialidade que primeiramente delimitava os altares como protagonistas do espaço e os demais performers como coadjuvantes e o caráter de interação com o público que deveria seguir a mesma premissa de liberação catártica existente no Workshop.

Até aí tínhamos um movimento arquitetado em oposição a uma realidade específica: o estado passivo das platéias de teatro. Havia um risco a ser corrido (o transgressivo) e referências que canalizavam nosso fluxo criativo (os limites). No entanto, no momento da ação uma das primeiras referências foram surpreendentemente quebradas por razões inerentes ao caos performático instituído.Os altares ficaram centrados neles mesmos e não estabeleciam um jogo com os performers, com isso os objetivos dos papéis ficaram parcialmente indefinidos. Esse esmaecimento dos limites provocou uma diminuição na intensidade da ação criativa e enfraqueceu a relação de oposição. Aos poucos foram estabelecidos outros vínculos que reconduziram a ação novamente em direção ao seu objeto, o público.

Meu objetivo aqui não é criticar ou qualificar essa Performance que foi de uma intensidade retumbante, mas sim colocar em discussão esse elemento processual tão bem evidenciado na sua dinâmica de execução e levantar com isso algumas questões para futuras reflexões nos nossos trabalhos de criativos.

Para o desenvolvimento da Performance foi necessária a colocação de marcos, pois, eles fortaleciam ali uma ação opositora e geradora de movimento enos momentos em que eles foram rompidos isso gerou um enfraquecimento temporário da ação. Mas, e se o nosso estabelecimento norteador fosse a inexistência de qualquer marco? Se o limite fosse a inexistência de limites? A instância do risco ainda estaria presente?

Isso nos leva ao levantamento de outras questões. O risco é realmente inerente a existência de pontos de controle?  A definição de referências é de fato fundamental para expansão do processo de criação de Performance?

Se as respostas para essas questões são afirmativas, talvez devêssemos intensificar os nossos olhares para a definição dos marcos definidores de nossos processos para que assim eles possam adquirir novas potências transformadoras.


Andréa Maciel Garcia é professora do Curso de Formação de Atores da Univercidade e atualmente realiza sua pesquisa de mestrado na UNI-RIO na área de Performance e Antropologia.

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